sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Meio mar

Escrevo mesmo no escuro - é verdade -
Não me importo
Escrevo mesmo o que sinto
Não me incomodo
Penso mesmo em teus olhos
Não me furto
Desejo tenho de teu afago
E bagunçar teu cabelo
E borrar espalhafatosamente
Este baton vermelho insano
Que emoldura teus lábios
Está longe, um aquário
Estou perto, um mar
És fortaleza
E eu, deriva
Um cabo me segura
Enquanto meu desejo
Navega em ti

Sonhei, acordei


Sonhei, acordei

Sonhei com um farol
Estava caminhando no escuro
Havia uns pedregulhos
Havia algumas arvores
Não estava perto do litoral
Caminhava sozinho
Sem sombra, sem cachorro
Caminhava em silêncio
Algum som cadenciado me acompanhava
Um ritmo constante
Um som que vinha ao longe
Na solidão e no escuro
Havia alguma aflição no peito
Com esforço respirei fundo
Com esforço respirei fundo
Era como se estivesse me afogando
Não havia água no sonho
Caminhando sozinho no escuro
Tropecei numas tralhas à minha frente
Baixei e tateei no escuro
Queria identificar aqueles objetos
Segurei aleatoriamente algo em minhas mãos
Era algo pequeno que coube na mão fechada
Quando olhei era um pequeno farol
Era transparente e brilhante
Era um farol completo
Parecia um pequeno chaveiro de cristal
O farol estava vivo
Pulsava sua luz interna
Era como se estivesse respirando
Em silêncio
Lembro de todos os detalhes daquele farol
Será que existe este farol em algum lugar?
Será que o sonho era um sinal, um farol.










Foto

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Reflexões de Momo

Lá pelas minhas 6' Série, quando fazia o ginásio num colégio ali na Baixada da Égua, Zona Sul de São Paulo, tinha um professor muito chato, muito chato mesmo.
Desde que pus os pés em Olinda tenho me lembrado muito dele e de algumas passagens que vivenciei durante vários anos de aula com ele e pra variar feito algumas reflexões.
O fato é que além de chato, ele era ultra-autoritário e não tinha tino nenhum com qualquer aluna ou aluno, na época eu achava ele velho, eu tinha 11 e ele devia ter uns 40 e poucos anos e ficava realmente possesso com qualquer bagunça ou falatório durante a aula, principalmente da Turma do Fundão.
Como era costume à época, ficávamos inventando milhares de apelidos para o tão querido professor, ele ficava irritado com todos.
O fato é que em algum momento, algum aluno soube que o tal professor era Pernambucano e ele passou a ser chamado de "Boneco de Olinda".
Em SP, naquela época havia (ainda há) um preconceito gigantesco com quem é de fora, principalmente o povo Nordestino e usar termos perjorativos era bem normal, hoje, depois de mais de uma década fora daquela babilônia, eu percebo claramente.
Soma-se à isso o fato de que também era muito comum todo tipo de zoação, humilhação e muitos socos e pontapés entre os alunos nos colégios públicos, não tínhamos a mínima noção do que hoje chamam bullying e a lei era do quem pode mais chora menos.
Incrível como normalizamos os preconceitos sem nem nos dar conta, mas voltemos ao professor que em determinado dia, realmente cansado de ser chamado daquela forma, um dia entrou na sala de aula e escreveu na lousa com letras gigantes: "BONECO DE OLINDA".
A classe ficou em silêncio, ele estava realmente com uma cara de furioso, uns poucos risos de desafio ainda ecoaram da turma do fundão antes que ele fizesse uma pergunta:
- Alguém aqui na sala sabe o que é um Boneco de Olinda?
Silêncio sepulcral.
Não vou me lembrar as palavras exatas dele, mas lembro do sermão, nunca vi ele tão calmo na vida, contou a história dos Bonecos Gigantes, contou muito sobre o carnaval de Olinda, levou algum livro com umas fotos pra mostrar o boneco gigante, enfim, deu uma puta escovada na gente.
Explicou a magia dos Bonecos em Olinda e disse que ele se sentia muito honrado em ter este apelido porquê em Olinda não é qualquer pessoa que se torna Boneco Gigante.
Eu achei massa o tipo de sermão, ele era professor de geografia e no final das contas percebo que em 4 anos de aulas com ele, aquele dia foi a melhor lição que ele deu.
Foi excelente porquê naquele dia ele conseguiu quebrar em mim uma grande barreira, mas apesar de toda a explicação ele continou sendo um professor chato pra caralho, insuportável mesmo e cada vez mais autoritário.
Embora alguns moleques ainda o chamassem de 'Boneco de Olinda' acabamos inventamos outro apelido pra ele, nem lembro qual, mas sei que este professor se tornou o inferno na terra, até que lá pelo final do ano letivo da 7' Série ele não aguentou as provocações e saiu no soco com 3 alunos ao mesmo tempo, dentro da sala de aula. Eu que já era ninja na época e pulei fora da minha carteira antes que os 4 caíssem por cima de mim, foi muito doido este dia.
Saldo final é que os alunos foram expulsos do colégio, acho que só um continuou estudando lá, mas perdeu o ano letivo.
No ano seguinte o professor ainda teve novos problemas com outros alunos até que em algum dia o carro dele apareceu com os 4 pneus furados e com a pintura toda riscada. Isto foi no ano em que concluí a 8' Série e eu já estava com 13 anos, maduro e preparado para enfrentar o Colegial, gostei tanto do Colegial que eu demorei nove anos para concluir saporra.
Hoje faço algumas reflexões sobre isto:
A mais importante e assustadora é perceber o quanto o preconceito está arraigado em SP e a gente nem se dá conta, mesmo entre a galera que tem uma postura mais libertária ainda existe um série de preconceitos que nem se percebe, eu ainda devo ter alguns deles mas ter saído de SP me deu a oportunidade de perceber isso de fora, de outro ponto de vista, sou grato por isso!
A segunda reflexão é ver o quanto este clima de intimidação, agressividade e cultura de preconceitos e zuação entre a molecada no colégio foi danoso psicológicamente para várias amizades e para mim também, claro, tanto que hoje ainda penso profundamente sobre isto.
Foram milhares de horas de aula e recreios perdidos, com apelidos escrotos, piadas sobre a aparência, a cor da pele, o tipo de cabelo, se era muito magro, se era muito gordo, se era muito preto, se era muito branco, e quem tinha nascido fora de SP sofria isso tudo em dobro, tudo era motivo para piada e a qualquer instante poderia virar cascudo e a qualquer instante poderia virar surra ou coisa pior.
Eu tive poucos apelidos na época do colégio, o que pegou mesmo foi 'Magrão' que até hoje é usado pelas amizades antigas, os apelidos não me intimidavam muito então geralmente os moleques queriam me bater mesmo, tomar o lanche, essas paradas, aí eu tinha que brigar porquê meu pai dizia que se eu apanhasse na rua, iria apanhar em casa de novo, aí eu tinha medo de apanhar do meu pai, né, porquê já tinha visto ele batendo num irmão meu e não foi nada legal.
Por isso eu ficava feliz quando chegava um aluno de outro estado, porquê assim os moleques paravam de me zuar por umas semanas e eu podia ficar no meu canto sossegado.
Que bom que o ser humano tem capacidade de evoluir, que ruim que nem todos perceberam isso ainda.
A terceira reflexão é que estando em Olinda eu vi e vivi um pouquinho deste real encanto do Homem da Meia Noite, ouvi algumas histórias e vi dezenas de Bonecas e Bonecos Gigantes, teve um dia do Carnaval em que houve um encontro com todos eles e era justamente o Calunga que vinha abrindo o cortejo de frevo.
Então, realmente o professor estava certo, os Bonecos Gigantes são festejados , reverenciados e cultuados aqui, é uma loucura, a galera sobe e desce as infinitas ladeiras daqui carregando e frevando este Boneco que pesa mais de 40 quilos, não sei como conseguem.
Isto me leva à última reflexão importante, o tal professor nunca deveria ter sido chamado de Boneco de Olinda, este apelido é uma homenagem muito grande pra um cara tão escroto como ele.
Fim.
'O Estudo é a luz da vida, não estude, poupe luz!'
- citação preferida do ginásio nos fins dos '80.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Rolo na feira

Hoje voltei na Feira do rolo de Peixinhos, fui de bici e chinelo pq aqui é assim o jeito mais agradável de pedalar neste calor manerinho.

Cheguemo na feira e vi numa lona uns tênis usados, aí tinha um tênis massa demais que eu sempre quis, fiquei encantado, perguntei o preço, o vendedor pediu R$ 10,00, ofereci 5 e ele aceitou, quando fui ver, só tinha 4, ele aceitou assim mesmo.

Calcei o tênis na hora e fui desfilar ele enquanto via outras cousas na feira do rolo.

Passado uns 15 minutos, um tiozinho me para e pergunta quanto eu quero no tênis.

Olhei incrédulo e perguntei:

- Você quer comprar o tênis do meu pé!?

- Claro, ele é massa, visse!? Quer quanto?

- Ah, só se for por R$ 10,00!

- Fechado! Ele concordou tirou a nota do bolso e me entregou.

- Sentei no chão, olhei com carinho de despedida pro tênis, tirei, entreguei pro tiozinho e calcei minha chinela de volta.

Foi massa, o tênis que eu quis a vida toda era tão massa que em 15 minutos ele valorizou 60% na minha mão, ou neste caso, no meu pé!

Acho que se nada der certo vou virar roleiro nessas feira tudo!

Pássaro tempo

Desenhei cal-ma-men-te as pequenas e coloridas palavras. 
Escolhi tamanho, formato, cores, espaços em branco e o tempo.
O sentido, não! 
Desenhei arabescos, o vento
e ca-da sí-la-ba das palavras que formam as ondas.
Encolhi sentimentos até escondê-los nas entrelinhas.
Sem sentido, tato, olfato.
Tempo passado, presente, passando, passado.
Cal ma men te desenhado.
E sem necessidade de fazer sentido.
E voou o tempo, o pássaro e algo mais.

Fui descendo pela praia, pelas praias

E deslizando no conforto de meu transporte, me transportando através da maresia e dos bons ventos que me lambiam na Praia dos Milagres desejando-me bom dia.

O sol, me beijando e guiando pela Sigismundo até o Forte de São Francisco e novamente o litoral de pedras e surfistas do "Zé Pequeno" no meu rumo à Casa Caiada.

São muitos nomes, sensações e cheiros que o vento forte do mar, misturado com o chuvisco insesante causado pelas ondas quebrando na praia, que muitas vezes me perco no olhar profundo da imensidão do mar, não vejo pessoas, não vejo placas, só flutuo ao vento, à deriva, olhando bem ao fundo, buscando algum sinal no extremo sul do Atlântico Sul.

Passam nas vistas algumas praias maravilhosas, com águas acalmadas pelos arrecifes de pedras que o bixo-homem vêm fazendo ao longo da costa, uma espécie de quebra-mar artificial que se iludem que pode segurar as forças dos mares caso ele resolva ocupar um pedacinho da costa.

E assim sigo flutuando entre as areias de Janga e suas casas e pousadas litorâneas, algumas parecem abandonadas, com acúmulo de sujeira e muitas portas, janelas e portões castigados pela força da maresia constante.

Passei pela Estátua de Iemanjá e algumas construções que eram ou pareciam ser antigos fortes, entrei pelas ruas e vielas de algumas comunidades mais caiçaras em busca de moradia, afinal de contas meu deslocamento não era somente de passeio, minha finalidade principal era encontrar lugares para morar, eu e Selvagem.

Vi muitas vielas com casas bonitas, algumas pequenas com varandas nas ruas perpendiculares da praia, algumas com quintal diminuto, cabe o Selvagem, cabe meu transporte, estou no litoral, bem no litoral, mais que isso só se comprar um barco e morar dentro do mar.

Me parece que estou quase na ponta do continente, no lugar mais dentro do oceano, na porção de terra mais próxima à Mãe África, sinto seu rugido vindo do mar que invoca as marés e destrói uma destas passagens feitas com toneladas de pedras e que serviam que passagem e acesso à uma das moradias locais, precisei retornar.

Segui por Paulista, entrei em diversas ruas e me apaixonei por muitas casas, quero morar no litoral, bem no litoral, não me importo de me locomover 30 ou 40km diários até Olinda para meus trabalhos, serão 1h30 diárias de deslocamento pelo melhor litoral que eu já vi na minha vida, é claro que entendo os dias de chuva e inverno que terei que enfrentar bem neste litoral, mas vale a pena, quero um casinha agradável no litoral, é isso.

Quando me perdi em pensamentos e retomei à consciência, já estava em Maria Farinha, haviam se passado 3 horas de deslocamento no litoral, pelas ciclocoisas, calçadões, pelas areias de algumas praias, uns trechos de pista e muita exploração das ruas e vielas dos bairros mais caiçaras.

Amei, quero morar no litoral, já falei isso? Bem dentro do mar, se puder vou comprar um barco e morar dentro deste Atlântico Sul.

Vai comer ou tirar foto?

Exercito minha boemia à luz do dia, sol à pino, um ou dois goles, copos, garrafas, tanto faz.
Preciso dum alívio pra cabeça, quero estar em sensação de flutuação, mar aberto, infinito, eu e o gigante sem preocupação, apenas o olhar sereno, a cabeça leve, os pés flutuando.

E foi assim, flutuando que ela apareceu, debruçou-se no balcão certeira do pedido, sentou-se na mesa à minha frente, esperou o pedido chegar, organizou tudo milimétricamente em cima da mesa, o copo, a garrafinha de cerveja, o alimento e fez uma foto que instantaneamente já circulou alguma rede social internética.

Me senti meio "das cavernas" por estar com um bloquinho de anotações e uma esferográfica, escrevinhando feito doido na mesa em pleno horário de almoço.

Ao sair do balcão, ela me deu uma olhada de cima abaixo, sentou na mesa bem em frente à minha e ficou me encarando, chamou minha atenção o fato de que ela cruzava e descruzava as pernas por baixo daquele vestido molinho, esvoaçante. Me olhava e cruzava novamente as pernas, me olhava e tirava uma nova selfie, arrumava as coisas em cima da mesa e fazia nova foto.

Comia, bebia, sozinha, me olhava, bebia, cruzava as pernas e arrumava o cabelo, bebia, me olhava e sorria. Quanto mais ela me olha tanto mais eu me encolho, quanto mais ela chega tanto mais eu me afasto.

Volto pra minha mesa, pro meu copo, pra minha caderneta, minhas anotações (inclusive o esboço deste ensaio) e me consumo, alheio à ela, alheio ao ambiente, alheio ao mundo.

E ao sair da bodega olho mais uma vez, com sorriso e biquinho ela me acena, em seguida mais um clique, mais uma postagem das redes sociais, mais uma curtida, mais ou menos isso...