sábado, 11 de novembro de 2017

Em ti, afeto

Deslizei meus dedos entre seus cabelos,
Senti seu cheiro, respiração, conforto,
Esfreguei minha cara lavada em seu pescoço,
Senti seu gosto, pulsação, ritmo,
Entrelacei meu corpo ao seu,
Senti furor, fogo, entrega,
Despertei atônito no meio da madrugada,
Senti calor, frio e uma débil esperança,
Agora acordado, te sonho,
Meu afago,
Meu afeto,
Insólito desejo.

Era meu o horizonte...



E nas vistas que via, te via,
E sorria e era sorriso, de lá e de cá,
Ela trocava letras, eu emudecia,
Queria ser fortaleza,
Pensando ser ousadia,
E remaremos adiante.

<3

Quebranto

Rompeu-se então o cordão que prendia o japamala ao meu corpo.
Rompeu-se por si só, sem impacto, sem ter enroscado em lugar algum, rompeu-se por si mesmo, o cordão do meu japamala.
Rompeu-se numa explosão de energia, enrolado que estava em suas quatro voltas folgadas em meu pulso magricelo, energia pura e explosão, rompeu-se sem perder as suas 108 contas.
Rompeu-se e em meio a sua explosão, desenrolou-se do meu pulso como uma serpente se solta do entrelaço de um graveto no momento de dar seu bote.
Rompeu-se meu japamala, mas somente o cordão que prendia a sua volta em si mesmo, continuam unidas suas 108 contas e ainda contam os contos que nos momentos de reflexão contei em silêncio.
E no silêncio, após romper-se, serpenteia guardião meu japamala.

Observei-te

Olhou para suas mãos com impressionante atenção.
Reparou os nós dos dedos ossudos por baixo da pele fina e ge-o-gra-fi-ca-men-te enrugada.
Olhou para seus olhos brilhantes, invasivo, a inexpressão sorrateira com ares blasé.
A pele esticada em volta de seus olhos disfarçava alguns ciclos que sua mão firme denunciava.
O óleo brilhante que dava tônus às maçãs de seu rosto era o mesmo que em denúncia explícita, ocultava o tempo em seu semblante, a ânsia em seu querer, o desejo cerrado em seus lábios, o universo em seu pensamento.
Os nós, a pele esticada, a lança no olhar, um dia, além.
Sou eu?
É você?
Somos outrem?

Como se (in)completam as memórias


Tento agora acessar os labirintos da memória em busca de lembranças recentes, das cidades por onde passei, das pessoas que conheci e principalmente das conversas que tive ao longo desta cicloviagem.
Na estrada, de bici o tempo passa em tempo diferente do tempo que estamos acostumados.
A mente embaralha rostos, risos e feições de pessoas que tão rapidamente conhecemos e já nos tornamos próximos.
Fecho os olhos e tento me lembrar das conversas que tivemos, das idéias que surgiram e de planos futuros.
Faço anotações mentais e à caneta de nomes e passagens enquanto frases soltas de conversas desconexas vêm à tona e voltam a submergir.
Traço uma linha de tempo de lá até cá e nela colo cartazes com olhares, frases, sorrisos e outras abstratas expressões que me fazem reviver as últimas semanas, as últimas horas.
Fico parado, estático, na sala cheia, olhando o vazio, alheio às conversas em volta.
Observo cores, luzes e movimentos dos locais onde estou, me atento aos gestos das pessoas, algumas falas e prefiro ficar em silêncio.
Sorriso distante, olhar sereno, pedalando a mente.
Já nem sei mais dizer se hoje já é amanhã ou nem foi ontem ainda.
Sei que é tempo de ancorar, respirar, para então navegar e pedalar novamente.

Lá do Alto da Sé

Desceu a inominável pela ladeira,
com suas 10 nações de maracatú,
seus afoxés,
jaraguás,
e caboclos de lança.
Rodeou, mandou varrer o terreiro,
acendeu o cachimbo e iniciou a pajelança.
Tinha graça no olhar essa inominável,
gracejo ao falar,
gracinhas em seus gestos, caras e bocas,
e em sua plenitude um gozo que era só dela,
e era mesmo só dela.
Desceu a ladeira em festa,
cavalgando seu jaraguá,
acenando e fazendo reverências.
E nem era carnaval ainda,
essa inominável...
Mas já é Olinda, linda.
Então está tudo certo.

domingo, 16 de abril de 2017

Era índia ela e era forte, postura firme, silhueta valente e seu olhar. Era calada ela e era atenta, olhava prum lado mas estava observando o outro e seu sorriso. Era índia ela e era uma bruxona antiga e era xamã e sonho. Era forte ela e não deixava uma brecha, um suspiro, um alento. Mas sorriu com o olhar, mexeu no cabelo e falou uma ou duas coisas reservadas. Era tímida ela e era valente e forte e índia, bruxona antiga e fez um ou dois gestos. E fez a Lua se encher e o fogo esquentar e meus sonhos...